segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crônicas domésticas


Dona Joana faz bolos de aniversário à moda antiga do glacê e do suspiro em forma de coroa. Recheio de doce de leite e ameixa. Cobra barato o quilo para ganhar com os salgados e brigadeiros. Deixa a neta raspar a panela se ajudar a enrolar os docinhos. Usa caldo de galinha no risole de carne e diz para filha mais velha não espirrar sobre a massa, não cresce. Só aceita encomendas de segunda à quinta, para entrega em até quarenta e oito horas. Faz dois bolos para caridade por semestre, por conta de uma promessa feita a Santa Ana em agradecimento a só ter perdido um dedo no acidente com a batedeira semi-industrial que comprou em vinte e quatro prestações no cheque quando as coisas começaram a dar certo, graças a Deus; e pelo membro amputado não ter feito mal aos convidados do cliente.

5 comentários:

Rober Pinheiro disse...

Dona Joana ou "crônicas domésticas".

Vou ficar com certo trauma de bolos de festa.

;)

Claudio Brites disse...

Na verdade ele nem tinha título. Mas gostei da sugestão.

E o pior é se eu disser que o fundo desse conto é a pura realidade...

Tiago Araújo disse...

aqui no prédio tem a Dona Irene que faz risole, coxinha, picolé e também reformas roupas em geral... sempre suspeitei dessa fila da puta!

Tiago Araújo disse...

a propósito: o texto é bom pra caralho! tão, tão Claudiobritiano... é, meu filho, o prozac tem seus louros... rsrsrs

Anônimo disse...

...humhum, nesses dias de festinhas de fim de ano, se eu tomar umas prá mais e sentir um dedo no risolis... deve ser efeito de bom texto!
cláudio gomes