domingo, 31 de agosto de 2008

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Angústia. Essa dorzona no peito da gente. Assim, danada. Uma tristeza não revelada, uma alegria mal entendida. Vai se transferindo pro nosso juízo e num minuto nem sabemos mais onde começou. Meu avô dizia que angústia era frescura de mulher malcasada. Mas ele mesmo esfregava o peito em noites de garoa dizendo que estava com o coração fraco. Angústia. Num mundo de minotauros, de moradores de rua, a solidão de estar perdido é o que sufoca, amarra e gira o pião. Mas a minha é a de estar acompanhado demais. Eu sempre tenho alguém aqui e ali. Dizendo oi, perguntando assuntos domésticos. Hoje mesmo fiz uma analogia, dois sentidos que não tinham conexão alguma, belos, palavras que rimavam, me escapou da cabeça quando alguém perguntou sobre o galão de água vazio. Acho até que fui eu mesmo, indo buscar o garfo na gaveta. A angústia da falta de solidão é comum ao artista, mesmo que ao de Segunda. Não é arrogância nem desejo de ser pária, é que as idéias, e as palavras, no meu caso, são como pássaros assustados, qualquer presença estranha e só me sobra seus cagalhões no rosto. Na impunidade de um átimo eu fico assim, vazio, pouco completo do que queria dizer, fazer. Assim não dá e o texto já não diz nada. O ombro dói pela falta de conforto, a tensão de ser espiado. O corpo transpira e o ar não vem. Não há suco de caju que baste. Só erros, quimeras assassinadas, palavras pisadas e alho. Muito alho na ponta dos dedos que enchem o teclado de uma chuva dura de novembro e espanta não só os vampiros, mas todos, até eu. Angústia, uma dorzona no peito... A necessidade de dizer algo e não saber o que é, de abrir a boca e não lembrar mais. Dor de acúmulo. Gazes que formam as nuvens onde eu não encontro formas e não brinco mais com os coelhos e os dragões. Uma mosca caminha pela parede, ela não voa, caminha calma esfregando os dedinhos, preparando algo sob a luz amarela que amarela o branco do quarto. O som na sala é de risos e tosses. Sempre há tosses, sempre. Cacos, alguns, eu nem vi ele aquela noite, dizem que ela morreu, coisas boas para um filme, cacos bons para uma crônica, talvez. Não consigo formar, ferver, fico na angústia da palavra mal dita, na dúvida entre mau e mal. Fico. Angustiado. E nem sou Luis, nem vou ser, desse jeito.

Um comentário:

Anônimo disse...

não disse nada, mas disse... é por aí mesmo.

esta tan bonito su texto

besos


kizzy