terça-feira, 23 de novembro de 2010

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Ando mais perdido que cego em bloco de carnaval. Ela me deixou, nem pareceu abrir a porta pra ir embora. Fiquei algum tempo desfiando o verniz da madeira, esperando atravessar seus pensamentos e entender a convulsão de sua decisão, mas não consegui sair do sofá, fiquei orbitando no mesmo que vem me viciando. No contrário do sonho. Se eu pudesse recordar do caminho que fiz até aqui, mas eu só me deixei vindo, um barranco no escuro e quando vi estava. Não há como fazer o caminho de volta, nem sei se ele existe, essa idéia de que “vim parar aqui” é mais para, mesmo diante da derrota, dizer que houve alguma progressão na minha vida, em nosso relacionamento. Mas, as vezes, chego a confessar para os ácaros que nunca sai do lugar, que tudo sou eu, sentado no banco primeiro, no útero, imaginando como as coisas serão, planejando. Eu sempre me encharquei de planejamentos. Aqueles que consegui colocar em prática, poucos, não deram certo. Não sou um bom planejador, mas insisto, tanto que só faço isso elaborar, riscar, prever. Abro mão de viver e por isso ela se foi, sem nem se dar ao trabalho de abrir a porta ela saiu e me deixou. Ela precisa de experiências, de acontecimentos, mesmo que sejam meus desvios internos, meus pensamentos podres, ela precisa de algo, não só um planejador, um projetador, ela não é plástica, ela é articulada, odeia o burocrático, o protocolar e só convive com eles se for para corromper, talvez volte, não é de guardar mágoas, mas terei que provar que mereço, não adianta, a Literatura não se dá bem com quem não vive.

4 comentários:

Tiago Araújo disse...

depois de
"mas eu só me deixei vindo, um barranco no escuro e quando vi estava",
eu fico imaginando se a literatura se desse bem com "quem" não vive....

ótimo texto, dá um aperto...

beijos

Claudio Brites disse...

Dá um aperto porque foi feito para desfazer outro. É o sentimento que ele reflete.
beijos
saudade

Bruno Cobbi disse...

Dá um aperto desgraçado mesmo.

A literatura só se dá bem com quem não vive, afinal o povo só fica famoso e respeitado depois de morto! ;-)

Saudades guerreiro! (e melhora esse título).

Laura Fuentes disse...

Concordo, dá um aperto mesmo porque ele é orgânico. No começo, é mais racional. Mas conforme vai seguindo vai perdendo a acentuação e crescendo em angústia. Escritores são seres bizarros mesmo, dificil a convivência.