segunda-feira, 29 de março de 2010

Negação do nada

Acho que vou carpintar a ausência do fato. Sim, a ausência, ou será que você não percebeu o silêncio distraído? A cadeira sem ninguém? Vou entalhá-lo, com um pedaço de aço afiado pelo meu tédio. Minha mãe sempre falou para que eu comesse feijão, ajudaria na gastrite restrita aos dias chatos, mas feijão no verão é como esse metrô lotado, cheio de joelhos suados e sem portas de saída. Eu prefiro a carpintaria, forço o amorfo a ser, deformo o ser com minhas dentadas. Quase um deus, ou uma criança com massinha de modelar. São esse cotovelos, essas bolsas falsificadas e alarmes de relógio que fizeram o fato não vir, só seus primos tortos, aquele irmão que gosta de parecer com ele, até seu cão, mas não ele; o fato quando chega a gente sabe. Vai ver ele morreu. Eu odeio o metrô, não por sua rapidez anunciada, sua limpeza formalizada ou o vão entre o trem e meu dia ruim, mas por lembrar a quantidade de pessoas que moram nessa cidade comigo, uma infinidade de fossas nasais que ignoram os fios de cabelos, mais de 100! caídos todos os dias carregando seus de-eni-ás que não valem a perícia técnica. Procuro, cartazes, tevê, chiados de trios-elétricos-humanos, mas nenhum fato e eu assim... Pego o pedaço brilhante, vejo sua forma lisa de rasgar madeira, riscar vidro, olho ao redor, ousado e afiado, nos olhos agora, não nos pescoços. Nos olhos estão a verdade carregada pelas veinhas, pelas remelinhas e encontro, descendo a escada, um tronco de nuvem entre os corrimãos, uma menina com cara de faça, cheia de cantos arredondados, uma seta que se move para o centro de sua útero e se raspa em jeans. Se ela me viu, não sei, se isso é o fato, agora não importa, mas o meu calendário ganha um dia marcado com “x”.


postado originalmente aqui

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