sexta-feira, 10 de julho de 2009

Leia isso aqui, que o dia está amanhecendo e eu vou dormir

Ela sempre deita antes de mim e adormece. Eu chego e ela já virou ontem. Então eu me coloco no canto da cama e penso em não comprar mais presentes de natal. Voltar para noites de cavalgada, de anos oitenta e garotas suadas sem nome. Saber o nome foi o problema. Perguntar, me encantar. Todo mundo é muito carente, não dá pra dar atenção. Mostras os dentes. Melhor a mentira, a maquiagem, o descompromisso, a falta de contas de luz. Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, eu caí nessa. No vem viver outra vez ao meu lado, caí. Ah, insensatez... Não devia ter me desligado dos videogames e me entregado à vida protocolada. Antes a falta de sexo era só incapacidade, amor, de ser um cara legal. Ou falta de dinheiro pruma cama qualquer. Era uma sensação de comida fora da jaula, do grande leão. Se te pego te mato! Hoje a porta está aberta, mas a comida está fria e o gatinho banguelo. E não tem megera na história não, amor. Não. A mocinha foi domada. E a vontade pelo chicote virou filme. Eu entendo seu lado, entendo o ônibus caro. Entendo o cliente exigente, amor. Entendo o banho frio que relaxa e o sono. Entendo você dormir antes de mim, amor. Eu tão bicho da madrugada. Tão fora dos seus horários. Eu que fico olhando seu corpo e pensando se o civil nos permite estupro. É, eu ainda tenho tesão em você. Nas suas curvas menos fechadas, mas ainda caminhos de voltas demoradas. Eu ainda quero essa boca que eu cansei escavar. Esses olhos fechados que eu costumo fazer chorar, só pra me sentir ator de novela. Esses cabelos que eu conheci negros e lisos. Ainda quero, amor, mesmo que com a luz mais discreta, pra esconder nosso corpo que já não é tão brasa, mora. E você ai, dormindo, exausta. Para acordar amanhã cedo e dizer que eu deixei você dormir. Que deveria ter te acordado. Seu sono de esfinge: me acorda e te devoro. Não devora. Não mais. Dá uma mordida, de vez em quando. Só.

7 comentários:

Laura Fuentes disse...

Um relato amoroso e comovente das impossibilidades provocadas pela maldita rotina. Mas quer saber? toda mulher, lá no fundo, tem a fantasia ser estuprada....

gui disse...

Embora possível o estupro no civil, faticamente falando, um suposto estupro pelo homem amado não é lá grande estupro... há sempre um prazer feminino em ser pega de pronto e sem prumo, despontá-la sem pequenas melosidades; sabe a que me refiro?, é quando o 'não' é mais forte e dez vezes mais pungente que o 'sim'.

Abraço.

Anônimo disse...

Laura, vindo de você, não me surpreendo, ao contrário, me esquento nesse frio paulista.

Guilherme, eu sei bem o que é isso, na maioria das vezes o "não" é "não mesmo, nem pense nisso ou te dou um soco".

abs

Kizzy Ysatis disse...

Aff, que texto divino, de-li-ci-o-so

suas confissões são seus melhores trabalhos, trate de pô-las na ficção para não precisar reclamar delas.
bjo

Tiago Araújo disse...

O estupro é apenas uma sensação.

Todo o resto é muito mais forte, não por ser "confessional", ou "confessionável", mas por ser tão angustiante quanto o ato de respirar, você não quer se dar o trabalho, mas precisa. Nesse ponto, tudo remete ao últero, quando somos alimentados por um corda, sem saber de onde vem ou o que traz, nadando em um liquído quente, sendo um ser estabelecido, incompleto de vontades e possibilidades, protegido e, ao mesmo tempo, preso no insólito ato de esperar pra nascer, mas, infelizmente, seu nascimento já passou, sua cara, seu jeito, suas idéias etc, há muito se mostraram e foram embora.

Tiago Araújo disse...

Essa é a essência da (maldita) Teoria da Bolha (ARAÚJO T. & BRITES C., Editora Coletiva, 2006).

Denize Muller disse...

Bom compreender. Mudar horários, para se encontrar. O tesão de xixi. O acordar descansada do ônibus e do cliente de ontem renovam. Faça amor pela manhã.
Bjs
O texto é forte e cheio do real.