quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Morte da Ironia

Faz muito tempo que não escrevo uma crônica. Nem sei se ainda tenho o jeito. Cronicar é como dançar, pode até não se esquecer o passo, mas vai se endurecendo. Entre queijo derretido no micro-ondas e Big Brother, assuntos não faltam. Obama, mudança de apartamento, férias, IMAX. Mas vou ficar num papo que, de galho em galho, caiu na minha mesa: dois escritores falavam e sentenciavam que a profissão corria grande risco. Segundo os tais, a capacidade das pessoas de colher a ironia no meio do texto faliu. Não se lê mais a ironia.
Precisamos encher nossos escritos de emoticons e “rs" e “he he he” para dar o tom cômico a uma ou outra frase e, assim, não ser mal entendido. E-mails são motivo de brigas e romances de sensacionalismo. Quem vem coberto pelas tais três camadas de leitura não aceita mais o humor irônico. Mas sem ironia não há literatura. Ou há, mas fraquinha, coitada. Sem cálcio algum nos esqueletos. E eles, os escritores que citei, balançavam a cabeça em luto pela morte do recheio de Machado.
E eu fiquei ouvindo, montando o quadro, lembrando das aulas de estilística em que ironia era a figura de retórica em que as palavras significam o contrário do que são, ou coisa assim. Onde dizemos uma coisa ao invés de outra. Algo como “as ruas da cidade são de uma paz abusada”, ou “crise econômica é assunto holywoodiano para os jornais terem o que falar”, como a guerra fictícia do filme Mera coincidência.
Fiquei pensando na morte da ironia. Com sua beleza exótica e seu salto vermelho. E os escritores ao redor, apáticos, chorando àquela que nunca se negou aos seus capricho. A boa puta! Morta de forma irônica, quando dizia o que queria dizer. Uma bala na cabeça em seu único momento de sinceridade. Com um sorriso de canto de boca ainda quando a tampa foi baixada. E os escritores começam a ler uma crônica de Machado que fala de lampiões. Foi quando percebi que nunca tinha sido bom em entender ironias e que vi num jornal que existe uma doença, comprovada cientificamente, de pessoas que não conseguem perceber ironias.
Eu, tão hipocondríaco, lembrei do remédio, ainda em teste e falei aos amigos literatos: - há cura e mesmo que artificialmente poderemos cultivar a falecida em nossas vírgulas e não se preocupem, pois agora remédio é entregue em casa, para que a população fique muito mais saudável. Essa população relaxada que não ia buscar os remédios nos postos de abastecimento, fazendo com que as compras do governo diminuíssem pela falta de demanda. Agora o remédio vai a casa. Garantindo a compra de cada dia para as famílias que dependem da droga, nas duas pontas, uma pela garganta, a outra pelo bolso. Essas famílias bem relacionadas, campeãs dedicadas de licitações bem organizadas. Falei para eles que não tinha como falhar, era só colocar na lista dos remédios de primeira necessidade, até mais que qualquer coquetel, os remédios de estímulo à decodificação da tal figura de retórica, fundamental para sobrevivência dos mais fracos, os escritores. Nada de morte a ironia! Nada de legalização da eutanásia! Ela vai sobreviver, mesmo que mantida por aparelhos.
Pelo bem da literatura, só dela. (rs).

7 comentários:

Marcelo Maluf disse...

Ah, meu caro, não seja irônico!
Belíssima crônica!
Beijo na testa!

Petê disse...

A ironia, eterna, sempre estará à espreita. Cultivá-la é nossa missão!
Ótima crônica, grande abraço.

Claudio Brites disse...

Petê, publiquei um convite no seu blog, cadê?
Manda email que eu mando ele de novo...

Maluf! Sempre bom seu olhar.

Mari disse...

Um viva à ironia, que mora, ainda que calada, dentro de cada um.

Tô virando sua fã, de novo.
Beijo!

Tiago Araújo disse...

fala sério, essa crônica é uma bosta! (salve a ironia!)

Claudio Brites disse...

Queridos, obrigado pelos ois e bois, espero que não estejam passando por aqui, tão somente, para garantir meus comentários em seu blogues, olha lá...rs... amosvos!

Laura Fuentes disse...

A ironia é o antídoto à mediocridade. Que ela tenha vida longa (ainda que necessite aparelhos). Bela reflexão, Claudio.