terça-feira, 22 de julho de 2008

Encontros de Literatura Contemporânea, primeiro dia

Começou hoje, organizado pelo Digestivo Cultural, o ciclo de debates: ENCONTROS DE LITERATURA CONTEMPORÂNEA na Oficina da Palavra na Casa Mario de Andrade.
Sem avisar, pelo menos para mim, mudaram os convidados que o programa prometia. Para hoje estavam Michel Laub, Daniel Galera e Luis Eduardo Matta. Somente o último apareceu junto com Miguel Sanches Neto e Flávio Izhaki. Não que o encontro tenha perdido, nada disso, o papo apresentou três escritores na ativa com realidades bem distintas e um relacionamento com o mundo editorial diferente. Acho que deveria ter sido informada a mudança, minha primeira vez lá e senti falta de uma satisfação.
Miguel Sanches falou de sua experiência de mais tempo, com a primeira publicação no começo da década de noventa, o funcionário público disse acertado, com uma clareza curitibana, sobre a realidade de estar fora do eixo Rio São Paulo e como foram seus acertos, ou não, apostando na literatura memorialista, romance histórico e trama policial. A literatura para ele se constrói, o ofício, por tempo de serviço, com isso que vai se ganhando espaço, respeito etc. Suas palavras carregavam uma relação religiosa com o fazer literário que divide espaço com sua carreira de professor universitário. Fiquei muito curioso para conhecer sua obra que vai da poesia ao romance e tudo o mais. Ele disse ainda que se deve tomar cuidado com o que publicamos na internet nessa ansiedade louca por escrever e ser lido, nem sempre o que vai postado está pronto e ai alguém pode ler...
Flávio Izhaki fez coro com Miguel em muitos pontos e contou que seu rendimento vem de leituras e copydesk, é da periferia do livro que se vive, já dizia Marcelino. O livro de Flávio esteve em muitos braços, mas foi numa editora de pequeno porte, Editora Guarda-Chuva, que encontrou abrigo. Miguel e ele falaram da importância de ter um livro pronto, na mão, porque a sorte é fator comum na história literária deles e não ter algo para apresentar na hora certa é complicado. (Eu chamo isso de escritor de livro algum...) Falaram ainda da importância de contatos no mundo dos livros. Miguel teve que escrever crítica literária durante muito tempo para conseguir abrir espaço e Flávio ainda está colocando os degraus.
No meio dos dois, o mais velho e o mais novo, estava o irreverente Luis Eduardo Matta, o LEM. Com sua filosofia sobre a importância de uma literatura mais popularesca, e da melhor formação do público leitor ele defendeu o thriller, falou como começou bem cedo, aos 17, publicando um romance por uma editora forense e contou que é um otimista porque as editoras estão mais profissionais e não é mais tão difícil publicar, o problema é ser lido.
As perguntas, feitas por Julio Daio Borges, do Digestivo, ficaram nas mais básicas: sua história, suas influências, sua dica aos jovens, etcetera e tal, mas que os autores conseguiram esmiuçar e mandar muito bem.
Algumas coisas que eles papearam: dificuldade em divulgar o primeiro livro; a necessidade dos contatos; luta contra ansiedade em apresentar logo o que escreveu; estar pronto para fazer trabalho de divulgador da sua obra; evitar enviar seus originais à autores consagrados sem prévia autorização, pois vai para o lixo.

Eu lembrei do escritor Sousândrade, das aulas do Jayro Luna. Esquecido por 50 anos, dizem que Sousândrade estava na frente de sua época. Sei lá, lembrei por ouvir muito dessa necessidade de contatos e Sanches falando que não quer receber o reconhecimento no póstumo e quantos autores bons estão apagados nessa febre de muitos publicarem e o que rege é o capital e o contato... Palestras de escrita tem me parecido, os livros de escrita também, parecido treinamento de marketing pessoal onde o papo de networking sempre rolava. Não sei, mas não foi sempre assim? Sousândrade é do final do século 19 e estava à frente de seu tempo nos problemas e na relação com o que não controlamos: o que as pessoas querem ler, dos leitor ideal ao real. Muito além. Eu pensei nele e quantos dele estão por aí e talvez isso faça a diferença entre alta literatura e literatura popular e aí entra o discurso do LEM que não tem medo de falar que lê Nora Roberts e que escritor não tem que ter medo de ser comercial e aqui casa tudo, ele fala o que muitos têm medo de peitar: quero ganhar dinheiro publicando e estou vendo que o que ganha são os popularescos como Harry Potter e seus derivados. Como o que é literatura de qualidade só é dito com o tempo, pois no tempo se firma, acho que não pode se perder tempo discutindo o ovo e sim escrevendo e publicando, se for popular, de polpa como diz Roberto Causo, melhor. Se vai perdurar pela eternidade, nem toda fibra de um escritor dedicado pode afirmar.
Sanches ainda falou da necessidade do autor nacional em romper com o público, em chocar e tudo o mais, ser de um grupo de 500 leitores como diz Nelson de Oliveira. As editoras estrangeiras estão trazendo outra filosofia para cá, menos romântica, que já existe há muito nos EUA e na Europa e quem tiver o espírito da época ficará com a barriga mais cheia vendendo direitos autorais para filmes e o caramba...

Falei. Tinha mais, confesso, encontros assim me deixam todo danado de vontade de sentar no boteco para discutir. Acho que um ciclo de debate serve para ativar um ciclo de debates e no momento é aqui que a coisa circula. Como a meia dúzia que convidei não foi, fico aqui para alguém ler. Espero...

A conversa estará disponível no Digestivo, amanhã, com direito a minha pergunta de sempre: o que acha de curso de formação de escritores?

Amanhã estou lá de volta e volto para dizer se mudou mais alguém e o que disseram.
Té mais.

3 comentários:

Anônimo disse...

Sugestão de blog: Liniers, quadrinista argentino, bueno para porra!

http://macanudoliniers.blogspot.com/

Abs

Brontops

Julio Daio Borges disse...

Claudio, obrigado pelo feedback. Na verdade, a Casa Mario de Andrade faz a divulgacao quando o projeto e' cadastrado, no inicio do semestre. Ocorre que, ao longo dos meses, muitos convidados nao confirmam, e somos obrigados a mudar as mesas. No Digestivo, voce sempre encontra a programacao atualizada, que anuncio apenas com um mes de antecedencia, quando todos estao reconfirmados. Abracao, leve tambem suas perguntas para o evento, Julio

Claudio Brites disse...

Caraca Julio, você é tipo o grande irmão!