quarta-feira, 11 de julho de 2007

Festiva de Literatura em Parati (sem itálicos)


Perto da pousada onde estou existem alguns terrenos baldios. Tijolos e vigas ocupam os espaços esperando a mão-de-obra para confeccionar as novas pousadas. Coisas da prosperidade flipiana. Pelo menos deste lado do rio. Bem, o tema aqui é outro. Deixemos os preâmbulos. Octávio Cariello diz que eu sou muito preambuleiro. Eu não sei se sou, mas estou sendo aqui.
Eu dizia, perto da minha pousada tem os baldios. Ontem eu caminhava sintomático, porque não achava os assuntos rodriguianos que Arthur Dapieve e Joaquim Ferreira haviam pedido na oficina de crônica para encontrarmos em meio à FLIP. Não achava mesmo. Então fui ao baldio. Olhei para o escuro e lembrei da pergunta de um menino à mãe em uma das tendas.
- Nelson Rodrigues já morreu mamãe?
Eu tenho pensado muito em morte. Nada profundo, ou filosófico. Algo mais simples, fático. Encontro com alguém e logo penso, esse vai morrer. Alguém conta uma piada e pondero, dia destes um humorista a menos. Minha mãe desliga o telefone e reflito, vou sentir saudades. Coisas assim. Nesse tom.
Dizem, se a memória do artista persiste ele não morre. Nesse caso a resposta para o menino seria uma repreenda com um digno peteleco.
- Morto o quê!? Falta de respeito!

Eu olhei para o baldio e Ele apareceu. Seus olhos carregados da eternidade maçante. O cigarro na metade. Me encarou sem sorrir.
- Certas verdades, exigem um canalha para dizê-las. Olhe o óbvio.
Voltei pro quarto com o dito lambendo meus ouvidos.
Diabo era essa verdade? O que era óbvio?
Perceber haver ali uma maioria que não lia uma linha o ano todo? E vinha ficar horas, conforme o tamanho do prêmio do autor, na fila da livraria por um autógrafo? Leitores? Turistas! Motivados para alimentar o álbum de seus orkuts, fotologs, etc etc.
Estive na Flip.
Na beira da praia vi duas jovens e uma garotinha. As moças sentaram em algumas pedras.
- Glorinha, vá brincar pra lá.
- Mas mãe...
- Mãe nada. Ali. Brinque por ali.
A menina foi a contragosto. As amigas acenderam um cigarro. Me fez entender a necessidade da distância para a pequena. Eu mesmo fiquei assim, meio alegre. Coisa boa. Conteúdo natural. Todas as vezes que a menina ousava se aproximar a mãe repreendia.
- Brinque aí. Aí mesmo!
Ousadia demais resultava em bofetada. Ela se distanciava em lágrimas. A amiga da mãe tossia. Ria.
Uma garota, os olhos eram só pupilas, me parou com um fanzine na mão. Não era a primeira, mas esta beirava o over. Os olhos tinham grande dificuldade de se manterem abertos. Ela dizia coisas sobre sua poesia e dinheiro para ficar em Parati e, acho, murmurou algo como rodrigueana. Olhava pro nada. A palma da mão aberta esperando o meu qualquer trocado. Menti não ter. Ela não ouviu. Ficou ali parada esperando que a interferência proveniente de todas as drogas consumidas desse espaço para minha voz, não tenho mesmo. Ela foi. Tempinho passou, me parou de novo. Dei dois contos. Agradeceu e me deu o fanzine. Um bordado de palavras escritas a lápis e recortes de revistas. Cópia amassada, mal-feita. Impedia a leitura do todo. Pouca coisa com sentido. Uma delas me chamou atenção, escrever pra mim é um vício.
Sexo, drogas e literatura? Cada mergulho é um flash! E o escritor é o astro. Celebridade. Quanto mais premiado melhor. Filas apocalípticas por um autógrafo. Eu li todos os seu livros. Cresci com suas histórias. Emoção. Furor. Coma alcoólico.
É óbvio? Não nesse caso. Para muitos a Flip não é qualquer lugar onde pessoas imperfeitas se encontram para curtir. O recorte das câmeras a veste como um reduto idílico aos escritos. O contato com o autor. Que contato? Filas empurradas com seguranças de rédeas curtas? A Flipinha, fantástica, até geograficamente está no canto.
Uma senhora, conhecida socialite carioca, me diz depois de um papo sobre centros culturais e lei Rouanet.
- Isso é dito para ser entendido entre nós, aqui. Gente como a gente. Freqüentadores de momentos como este. Não por esse povo que recebe o Renda Mínima. Eles ouviriam e iriam para o boteco beber, sem pensar em nada.
Não percebeu ela que a verdadeira Flip está nos botecos?
Tietagem. Consumismo desvairado. Superficialidade. Pop.
E como todo o bom pop atrai todos os holofotes. Luzes demais geram sombras e Parati está imersa nelas. Amor à leitura? Bah! É mais um relacionamento falso. Sem amor. E por isso da certo, só os casamentos onde não há amor dão certo, não é Nelson?

Claudio Brites
7.7.o7


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