quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Reboco de nuvem

O menino tem sobre si um fardo. Feito de juta, fedendo a gatos mortos. Vai indo opaco, mesmo o peso, o cheiro, nada o tira daquele estado reto de andar. A estrada está quente e ele descalço. Alguns carros passam, mas só uma menina sem idade para entender aprecia o caminhar do menino, quase parado diante da velocidade das rodas. Há uma gota de suor sob a pele do menino, uma gota preguiçosa que insiste em não escorrer, ela não consegue captar o tamanho, formato, cor da face onde está plantada, não sabe de onde brotou, o que representa, só sabe que não quer cair, se desfazer no vento do mundo. Ela prefere se fingir cristal, adorno para face do garoto estéril de supreendimentos. Há uma curva que é curvada pelo caminhante. O piso preto dá lugar à terra ainda lembrada de que foi lama. O menino não se abstém do zigzag das poças, ficando mais baixo e molhado enquanto segue. A chuva foi calma, mas o bastante para desfazer os campinhos de areia, abarrotar os castelos de papelão e matar as crianças sem braços ágeis para, ao menos, boiar. Ele mescla mais a sua mão com o laço da corda que prende à boca do saco e começa a subir um morro. O barulho do rio é como um chiado no rádio, mas sem música. Percebe uma cobra fingindo ser graveto. Do lado dela coloca o saco e respira para ter certeza de que ainda é ele mesmo. Abre o saco e o rosto do irmão ainda insiste em olhar. Ele desfaz o pequeno dos trapos de juta e coloca o terço no pescoço do falecido. As contas vão brotando em violetas azuis que vão se mesclando com o pequeno de braços pouco ágeis e transformando seu cadáver numa embarcação feita de peixes de prata e olhos vazados. O menino espera a transformação se dar e o cardume começar a subir o rio. Então dobra a juta e coloca dentro da boca da cobra que se espanta de ter sido descoberta em seu disfarce. Vira as costas e deixa o corpo mergulhar também, alimento para as pedras, espanto para os musgos.




3 comentários:

Tiago Araújo disse...

puta que me pariu. lindo.
é prosa-poética high definition ultra plus max, já que vem com cheiro e textura.

Blog do Akira disse...

Ótimo texto, riquíssimo em detalhes intrigantes e densos de conteúdo. Intriga-me sempre o detalhamento de cheiros nos textos que leio, no caso desse, da juta "fedendo a gatos mortos", que impregna do começo ao fim. No mínimo obriga-me a conhecer o cheiro de um gato morto.

Laura Fuentes disse...

Prosa poética feita de cheiros, lembranças e de uma cruel realidade, tudo em camadas. Lindo!