sexta-feira, 11 de setembro de 2009

De papos e editoras ou a literatura precisa de dentes

Eu tinha um amigo que queria ser correspondente de guerra. Não era um Amigo, um colega no curso de comunicação, que logo que eu terminei com uma namorada partiu para cima dela, mas não conseguiu nada. E nem virou enviado de guerra, estava, da última vez que o vi, no site sobre futebol. Tanto esse cara, quanto outros no curso de comunicação tinham uma energia que eu invejava, queriam desbravar o mundo, tornarem-se âncoras pops dos melhores jornais e colunistas dos cadernos mais respeitados. E eu lá, no meio, todo comedido pensando que a única coisa que queria era poder contar as minhas histórias, compartilhar minhas insanidades e pagar as contas do mês. Eles queriam mudar o mundo, não mais com aquela visão marxista do jornalista sinônimo de esquerda, o mundo seria mudado de dentro para fora, seus mundos. Então saí do curso de comunicação, sem dinheiro para bancá-lo e fui fazer Letras. Logo senti que a energia dava lugar para um ambiente quase de gesso. Estudantes bem mais velhos que eu, almejando o funcionalismo público, dar aula na rede, na prefeitura de preferência e nunca mais se preocupar em procurar emprego. E eu só querendo escrever, compartilhar meus textos e aprender lidar com a palavra de forma mais de bom trato. Desiludido, percebi que o jeito era buscar sozinho e encontrei as oficinas literárias e o blogue. Meu blogue. Meu palanque, mesmo que ninguém estivesse ouvindo, os textos saiam das gavetas e ficavam mais reais. Não foi fácil. E por que estou falando tudo isso?

No dia 3 de setembro fui com Nelson de Oliveira, Laura Fuentes e Andréa Del Fuego (sim, dividi espaço com André Del Fuego e nem tirei uma foto, de chorar...) bater um papo com alunos do 3° anos do curso de jornalismo, na PUC São Paulo. Fomos a convite do jornalista e escritor Wladyr Nader, atual coordenador do curso, que nos pediu para papear com os alunos sobre o Blablablogue e sobre nossa jornada literária. Um grupo bem diferente daqueles que citei lá no começo, menos enérgicos, mais contemplativos. Talvez pela chuva, pelo ar condicionado. Mas foram atenciosos, mesmo que lendo seus emails particulares, ficaram ali percebendo nossas palavras. Falamos da biografia de nossos blogues, das motivações para postar, dos temas, das idiossincrasias que só um escritor tem. Ou acredita ter, não sei.

No papo, pude perceber que ando mais certo de algumas coisas que digo do que imaginava e que outras não tem sentido algum. Mais certo que mesmo que eu tente, esse caminho de literatura e falta de sono já é o meu caminho e gosto mesmo é de falar disso. Como disse o Nelson, nossa bolha dentro desse mundo caótico. Mas certo também que a maioria das pessoas não está nem aí para isso, cada um com seu fardo, que a literatura soa como algo pouco prático numa era pós-aquário. É como falar de vitrolas, mesmo que ela esteja se manifestando em blogues, celulares. É como se ela precisasse desses suportes para não desaparecer, como uma senhora que ainda tenta usar roupas de garota, fazer plástica... Entrei num barco já com o casco furado, mas vou naufragar sorrindo, se isso acontecer, pode crer.

8 comentários:

Petê Rissatti disse...

Texto ótimo, Claudinho. Fui lá pouco depois, para o mesmo tema, só que com os primeiranistas. Turma empolgadinha, talvez menos que a sua, mas foi bacana.

Brontops Baruq disse...

Eu também tô com esta impressão de pessoas adrenalizadas por cocaína ou livros de auto-ajuda ou pais superprotetores, querendo devorar o mundo e botar esta porra sob os pés, sendo que não conseguem nem usar meias sem que elas fedam, sendo que não conseguem imaginar o que é não saber de algo, pois tudo sempre está no google, sendo que nunca se sentem sozinhas, se sentem sempre vigiadas, vigiando, superprotegidas como as menininhas que se perderam num esgoto e usaram o celular pra mandar mensagem pro facebook ao invés de ligar pros bombeiros ou pra polícia. O mundo vai morrer gordo.

Denize Muller disse...

Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade. (-toca Raul!!!!!!!!)
BB,
Você já faz o sonho , realidade. Agora, é só chorar o leite derramado em tantas leituras, escritas, lançamentos, falta de grana e tempo. e ser feliz com as escolhas. bjs

Andre disse...

...

Stéphane Dias disse...

como os temas recorrentes na literatura, os sentimentos q dominam as pessoas tb são cíclicos...seja na comunicação, seja nas letras, sempre terão seus mundos, seus mudos mundos. a questão é se conseguiremos dialogar entre nós, pessoas, através desses mesmos sentidos...qm sabe aí a literatura n tenha um espaço...comunicação pelas letras...

Bruno Cobbi disse...

Brites,

Pro Cobbi, literatura é fazer arte com o significado das letras (pq arte com letras é tipografia!).

Se essa arte está num livro, num jogo de XBOX 360, no novo filme dos Vingadores ou numa obra que mescla os três, não faz diferença: continua sendo a nossa arte.

E se esse barco aí afundar, fica frio! Eu chamo o capitão Nemo e vou te resgatar no Náutilus.

Eric disse...

Que bom que foi tudo bem por lá :)
Abss! Take care.

Laura Fuentes disse...

Foi bom falar com os alunos da PUC, porque havia uns poucos interessados e curiosos. Eles são poucos, sempre serão. Mas afinal, é para esses que escrevemos e que não permitem o barco virar.