quinta-feira, 17 de julho de 2008

Uma tarde com Ketlen

Hoje conheci Ketlen (desculpe se essa não é a grafia certa Ketlen, mas é que não tivemos tempo para esses detalhes). Um circo instaurado na Praça da Sé e ela era a atração principal. Caída na terra, sangrando, só de calcinha. Arrancando o mato e urrando por dores internas e todas as outras. O público encantado pelo furor daquela dor, olhava, comentava e só. Duas evangélicas professando que aquilo acontecia para a glória do nome do cristo, a moça sangrando era mais um mártir para edificar o poder de Deus. E sobre ela eram despejadas profecias de botequim: uma casa, uma vida melhor, a fuga da homossexualidade. Uma senhora, outra evangélica, bem mais sã entrou na arena, dizia para as maritacas se falam de Jesus façam algo, vamos! tirou roupas não sei donde e se colocou a vestir a dor do rapaz. Depois trouxe um churrasco grego e um suco para acalentar o sabor da terra que ele lambia e raspava no rosto. Nesse pé eu já tinha entrado em contato com o Centro de Referência Mensageiros e pedido que mandasse uma perua da Central de Atendimento Permanente e de Emergência – CAPE – para cuidar do pobre. O grupo foi desfazendo e fiquei com ela. Disse que era de uma ONG e que esperaria a CAPE para que eles pudessem levá-lo ao pronto socorro e depois a um abrigo. Ele só dizia de nada adiantava. ONG não adianta, tudo mentira, falsidade, só fingem que se importam. A CAPE é cheia de gente muito humilde, mas eles não resolvem nada. Ninguém não resolve. Eu não preciso de médico, preciso de um psiquiatra e remédio controlado, a rua me deixou a cabeça ruim. O olho borrado de maquiagem e as unhas mal pintadas contornavam um corpo de sangue pisado, rosto que fora botinado durante a noite por um grupo de agressores que ele não tinha mínima idéia quem eram. Chutaram, esmurraram, curraram. Por conta do frio tinha bebido para cacete e fumado pedra e só sabia que tinha apanhado, muito. Eu fiquei ali ouvindo e ela contando, agrupando nomes e fatos e veio do Ceará aos 17, era auxiliar de cabeleireiro lá, e aqui viu que o sonho era evanescente e logo se prostituía em Santo André. Agora, aos 24, via-se há um ano na rua. A cafetina cansara dela. As palavras eram lúcidas, homofobia, desigualdade, direitos para aqueles que tinham cama e comida, casa e lata de leite condensado. Chorou de novo, pois lembrava que a família o amava e aceitava sua sexualidade, mas a tentação de são paulo como o lugar melhor venceu a vontade de estar em casa. E agora o que ele mais queria era voltar para mãe, para manicure. E nessas lágrimas de saudade passou uma viatura de Policiais Militares, um perguntou se estava tudo bem, eu disse que sim, o segundo perguntou se estávamos namorando. Eu disse, tolo, que estava esperando a CAPE. Só isso. Só. O sorrisinho malandro foi embora. E eu fiquei ouvindo Ketlen dizer viu é esse tipo de coisa que acontece todo dia. Eu disse que eles deveriam nos proteger e não aquela palhaçada. Mas eu não tenho nada contra policial, tem gente muito boa, ela me ensinou. Ketlen me disse ainda pode ir se quiser, várias vezes durante a espera, até que na última confessou que precisava dormir. Eu fico aqui, garanti. Ela aceito e antes eu suspirei esse mundo acabou e nós ficamos. Ela disse nada e o menino dormiu fácil. A CAPE demorou duas horas para aparecer. Prestativos, acordaram ele e papearam, ouvi ele falando me chamo Ketlen, Ketlen e depois mudando de idéia. Eu saí antes de ouvir, sem me despedir dela, dizer o quê? Boa sorte? Obrigado?

4 comentários:

Anônimo disse...

Tá legal a crônica/conto/verdade, mas precisa dar uma revisada: leito condensado parece coisa de cama de colchão duro...

Abs

Brontops

denize muller disse...

Gostei. Não tenho dúvidas sobre a veracidade. Quem disse que crônica/conto/poesia/ não são verdades? Chorei sou humanizada. Gritei sou animalizada. Bjs Denize Muller

octavio cariello disse...

mas que puxa...

Mari disse...

Uou...
Comento, mas confesso que sem palavras.