Abro a janela e dou um rugido. O som se desintegra, nem chega ao andar de baixo. Eu grito de novo e novamente a minha angústia de falta. Falta de palavras, de modos de dizer. Sempre falta uma palavra. Todas. Eu tive uma formação escolar precária, não por estudar em escolas ruins, eu não costumava ir para escola. Faltava muito, sempre doente, sempre mentindo. Os doentes sempre unem as famílias, ter um doentinho para cuidar é quase um status e por isso minha família nunca ligou e eu não ia, ficava entre formiguinhas vermelhas na sala, jogos eletrônicos e livros amarelados. Uma formação muda, porque a escola não é só para o contato com o conhecimento, é para aprender a dar nó em cadarço e mandar tomar no cu. E eu dou outro rugido e sinto a garganta cortar com esse. Um rugido monossilábico que tenta significar todas as palavras que eu não sei dizer, que eu não consigo articular. O vento gelado tenta mostrar que não adianta insistir, os muros, os prédios, os carros, ninguém quer saber do meu rugido, ninguém quer secar meus olhos. Mas eu grito para o vento, porque eu aprendi a mandar se foder, sozinho. Mesmo sem ir para escola eu tive minha primeira namorada, eu aprendi a me masturbar pensando nela. E a mandar se foder. Tomar no cu. Mas não aprendi as palavras, porque as palavras pedem variedade, prática. Todo bom falador sempre fala demais, porque é na conversa que a fala trepa com as palavras. Malditas noites sem dormir e folhas em branco. E o verbo é sempre o mesmo, o substantivo sempre comum. As formiguinhas não eram de falar. Um helicóptero passa, eu dou um rugido para ele, mas ele passa. E eu quase não tenho voz e mais um rugido e ela se vai e então eu cuspo, com todos os pulmões, com todo o catarro e o vento gelado, novamente professoral, devolve meu cuspe, na minha cara, na minha boca, assim, para que eu perceba que o problema é meu, não das palavras, da falta.