quinta-feira, 30 de julho de 2009
Livros
quarta-feira, 29 de julho de 2009
FDP.FM
Eu queria arrancar a cabeça desse escritor. Fico ouvindo ele falando no rádio, dando entrevista na televisão. Todo cheio de palavras. Chamando a literatura de madrasta. Ingrato. Só se for minha madrasta, puta. Dele é mãe. Alimenta o seu ego de vírgulas bem colocadas e capas com verniz e papel especial. Fica ai falando de viagens internacionais, de feiras literárias e folhas premiadas. Eu poderia arrancar a cabeça dele e enfiar debaixo de uma pilha de dicionários. Seu jeitinho desleixado, como quem não está nem ai para fama, as melancias cortadas e os incentivos culturais. Seu cabelo desfiado, seus olhos insuportavelmente inaverbiais. Arrancaria sua cabeça e abriria seu cérebro para colocar em praça pública espetado como asinha de franco. Esses olhos de ontem, de artista. Eu arrancava essa cabeça, mas antes mergulhava ele num tonel de aranhas pequenas que passariam por seu corpo cheio enredos, de linguagem. Deixaria ele sem verbo. E ai limparia seus ouvidos e arrancaria sua cabeça. Seu cérebro, que eu comeria um pedaço, o hipotálamo, eu acho. Escritor maldito, que fica assim na orelha, nesses centimetros, rindo de mim.
terça-feira, 28 de julho de 2009
No fundo No Fundo Ninguém Sabe Tudo
quinta-feira, 23 de julho de 2009
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
a la carte ou estou gripado e de cama
A tristeza é um prato com carne, ovos e semente. Carne e seu cheiro de defunto, mesmo que bem passada. Carne porque toda tristeza evoca a morte. Seja como fim, ou como meio. O triste, às vezes, acha que só com a morte a coisa se finda. Ovos, com o que eles têm de meleca, de promessa não cumprida. Nenhum ovo nasceu para ser frito e sim para ser frango. O ovo no prato é essa promessa desfeita e como toda promessa tem um quê de ranço. E o ovo também tem o amarelo da gema, amarelo tem um pouco de tristeza. Tristeza presente, que se espalha. O amarelo é presente e espalhante. E o amarelo é alegre. Toda tristeza é um hiato entre duas alegrias. Ou o passado de uma alegria que nunca vai voltar. E semente, que tem um pouco de ovo, de promessa não cumprida, de carne, porque não é bem digesta e de trabalho. Porque toda tristeza é o rastro de um trabalho que se fez angústia, que se faz cinza. E a semente é, se tirada do prato, ao contrário do ovo, possível de ser resgatada, plantada. Se cair do prato em solo fértil, a semente pode gerar vida, ainda. A tristeza é assim, um pouco de esperança também de que no fim toda doença acaba, todo medo se esvai, todo desgosto apequena. Já dizia meu pai, o tempo é o melhor amigo do homem e suas dores.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Bolso é o filho da bolsa, não acredita? olhe dentro do ventre dela, eles estão lá, quietinhos...
Hoje eu li a Bolsa Amarela da Lygia Bojunga. Eu nunca tinha lido essa autora. Nome bom de pronunciar, Bojunga, parece nome de inseto raro. Quando terminei fiquei me perguntando quais vontades guardo dentro da minha mochila. Eu sempre andei de mochila. No colégio me chamavam de Jabuti. Calor ou chuva, praia ou cinema, lá estava eu de mochila nos ombros. Teve a época da moda de bolsa de carteiro, eu cedi por um tempo, mas logo voltei pra boa mochila de duas alças. Dentro um guarda-chuva, um rolo de papel higiênico, um caderno de desenho (mesmo eu não sabendo desenhar uma casinha), uma bolsinha com lápis e dados de vários formatos. Mas não me lembro das vontades que lá guardava. Estavam lá, mas só vejo a materialidade de suas cores e não consigo ouvir seus conteúdos. Elas não inflavam como as vontades de Raquel, no Bolsa Amarela, que cresciam como balões. As minha pesavam. Como bigornas. Solidificavam como pichações no tijolo. Eu terminei o livro da Bojunga e fiquei andando na praia, pensando em ser um galo voador que defende as minhas idéias e que não deixa os outros abdicarem das suas. Mas acho que as minhas idéias também estão costuradas com linha forte. Terminei o livro e lembrei que sempre fui encantado por guarda-chuvas. até tenho um livro inacabada sobre um guarda-chuva mágico. Que livro bom esse da Lygia, que delícia de combinação de palavras e algodão doce. Agradeço ao amigo Marcelo Maluf pela indicação. Eu vou ficar aqui, deitado na cama, nesse dia cinza, que eu resolvi agir como camaleão e ficar cinza também, como concreto no colchão, pensando em pipas vermelhas contra o céu cor de estanho, tentando lembrar quais são as vontades que eu guardava, ou guardo ainda, vai ver estão lá, dentro das mochilas velhas que eu nunca jogo fora. (perto das cartas de Magic que eu nem lembro como usar, magia condensada em papéis velhos, coitada).
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Leia isso aqui, que o dia está amanhecendo e eu vou dormir
Ela sempre deita antes de mim e adormece. Eu chego e ela já virou ontem. Então eu me coloco no canto da cama e penso em não comprar mais presentes de natal. Voltar para noites de cavalgada, de anos oitenta e garotas suadas sem nome. Saber o nome foi o problema. Perguntar, me encantar. Todo mundo é muito carente, não dá pra dar atenção. Mostras os dentes. Melhor a mentira, a maquiagem, o descompromisso, a falta de contas de luz. Quando eu estou aqui eu vivo esse momento lindo, eu caí nessa. No vem viver outra vez ao meu lado, caí. Ah, insensatez... Não devia ter me desligado dos videogames e me entregado à vida protocolada. Antes a falta de sexo era só incapacidade, amor, de ser um cara legal. Ou falta de dinheiro pruma cama qualquer. Era uma sensação de comida fora da jaula, do grande leão. Se te pego te mato! Hoje a porta está aberta, mas a comida está fria e o gatinho banguelo. E não tem megera na história não, amor. Não. A mocinha foi domada. E a vontade pelo chicote virou filme. Eu entendo seu lado, entendo o ônibus caro. Entendo o cliente exigente, amor. Entendo o banho frio que relaxa e o sono. Entendo você dormir antes de mim, amor. Eu tão bicho da madrugada. Tão fora dos seus horários. Eu que fico olhando seu corpo e pensando se o civil nos permite estupro. É, eu ainda tenho tesão em você. Nas suas curvas menos fechadas, mas ainda caminhos de voltas demoradas. Eu ainda quero essa boca que eu cansei escavar. Esses olhos fechados que eu costumo fazer chorar, só pra me sentir ator de novela. Esses cabelos que eu conheci negros e lisos. Ainda quero, amor, mesmo que com a luz mais discreta, pra esconder nosso corpo que já não é tão brasa, mora. E você ai, dormindo, exausta. Para acordar amanhã cedo e dizer que eu deixei você dormir. Que deveria ter te acordado. Seu sono de esfinge: me acorda e te devoro. Não devora. Não mais. Dá uma mordida, de vez em quando. Só.
