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sábado, 1 de dezembro de 2007

Aceno

Já faz algum tempo que não posto. Indisciplina. As coisas mudaram muito de Paraty para cá. Entrei no Curso de Narrativas Breves do Marcelino Freire, no Centro Cultural b_arco. Uma experiência interessante. Agora estou a toda num romance. Mas o que pesa mesmo é o nascimento de dois filhos, um de papel e outro de amor.
Organizado, com ajuda de Kizzy Ysatis, o livro de contos de Vampiro pela sempre Andross Editora. O Livro Negro dos Vampiros está pronto. O lançamento é 16 de Dezembro, às 18h na Casa das Rosas, Paulista, 37. Fiquei orgulhoso pelo trabalho. Uma obra muito bonita e com textos que enriquecem o mote.
O outro é meu, ou minha, filho, ou filha, que minha esposa espera. A viagem mais louca de todas: vou ser pai. Nunca conseguiria narrar as sensações que me tomaram e tomam depois do recado. Insanidade. Sei lá. Felicidade. Muita. O engraçado é que em minha última postagem desregulada falei da inconstãncia da menstruação... pois é.
É isso. Um post bem pessoal. Mais um oi de quem andava desaparecido.

Vontade de Pedra

E a montanha se levantou. Esticou suas pernas atrofiadas pelos séculos de repouso e começou a caminhar. A fauna que habitava nela pensou enlouquecer e se suicidou, a flora invejou a coragem da casa em abandonar as raízes. Ela suava rochedos no esforço de ir com delicadeza para não machucar muito o mundo com suas pisadas. O bater dos dobramentos e o esfregar de suas chinelas determinavam novos caminhos para rios e novas moradias para cânions. A neve rolava casposa por sua cabeça refrescando o cansaço da ousadia. Os vales se acompridavam esperando que ali ela parasse; cordilheiras a convidavam para festejar e à estar um pouco mais com elas; algumas a revelia, sorrindo preconceitos; o mar abria os braços para acolher a nova visitante; o mundo físico e político era redesenhado pela caminhante. Os homens fingiam não ver. Difícil aceitar uma montanha, assim, caminhando livre por onde queria. Ela mesma não queria muito, mas a vontade de outro a impelia. E ela ia andando e andando. Rangia seus pensamentos empoeirados e admirava a paisagem que pela primeira vez mudava. O coração de pedra agitado, mais quente que nunca lembrava os tempos de vulcão. Os pássaros atropelados como mosquitos em uma rodovia. Muitas cidades deixavam de existir. Meio triste e pesarosa pelos estragos a montanha titubeava se parar, mas logo lembrava do motivo de ter se levantado e ia e ia. E foi e chegou. Acomodou-se felina na planície onde ficaria para sempre, ou até um novo bom motivo para se mudar. Encaixou suas escarpas retumbando um suspiro satisfeito. E antes dela voltar ao seu silêncio de acidente geográfico, meneou o cume para os dois olhos que a contemplavam com fé.